Para me tornar jogador profissional de futebol,

saí do Japão e vim para o Brasil.

Queria melhorar.

Queria me tornar profissional.

Queria descobrir até onde eu conseguia chegar.

Também queria conhecer um mundo que ainda não conhecia.

Acho que, quando estava no Japão,

eu vivia olhando para o que vinha depois.

Quando eu melhorar mais.

Quando os resultados aparecerem mais.

Quando eu me tornar profissional.

Quando meu sonho se realizar.

Com certeza, lá na frente,

haveria uma vida mais feliz do que a de agora.

Era o que eu pensava.

Por isso,

mais do que aquilo que eu já tinha,

o que eu ainda não tinha parecia maior.

Resultados.

Reconhecimento.

Sucesso.

Sonhos.

Eu só olhava para aquilo que ainda queria conquistar.

Mas,

ao sair do Japão e ir tão longe atrás de tudo isso,

acabei enxergando coisas que antes não via.

Eram

aquelas coisas que eu sempre tinha chamado de normais.

Ter minha família por perto.

Poder encontrar meus amigos quando quisesse.

Poder ver quem eu amo.

Conseguir, nas minhas próprias palavras,

expressar exatamente o que estou sentindo.

Comer aquilo de que gosto.

Ter um lugar para onde voltar em segurança.

Ao caminhar sozinho à noite,

não precisar ficar excessivamente atento a tudo ao redor.

Os trens e ônibus chegarem quase sempre no horário.

As ruas serem limpas.

Entrar numa loja de conveniência

e encontrar quase tudo de que preciso.

Abrir a torneira

e usar a água sem precisar pensar em nada.

Quando tenho alguma dificuldade,

poder pedir ajuda a alguém em japonês.

Olhando para cada coisa separadamente,

tudo parece muito pequeno.

Quando estava no Japão,

eu também não vivia agradecendo por isso todos os dias.

Porque,

para mim, aquilo era normal.

É difícil chamar de felicidade

algo que sempre esteve ali desde que nascemos.

Quando vim para o Brasil,

encontrei muitas coisas diferentes.

A língua é diferente.

A cultura é diferente.

A proximidade entre as pessoas é diferente.

A relação com o tempo também é diferente.

O ambiente das cidades é diferente.

O futebol também é diferente.

Aquilo que as pessoas valorizam é diferente.

No começo,

muitas dessas diferenças me deixavam perdido.

“Se fosse no Japão, seria assim...”

Pensei isso muitas vezes.

Mas,

conforme fui passando mais tempo no Brasil,

minha maneira de pensar mudou aos poucos.

Só porque é diferente do Japão,

não significa que esteja errado.

O Brasil tem

muitas qualidades que só existem aqui.

As pessoas são próximas.

Até desconhecidos puxam conversa com naturalidade.

Mesmo quando a comunicação não é perfeita,

há quem se esforce para entender.

Muita gente valoriza muito o tempo com a família e os amigos.

As pessoas se reúnem,

conversam,

riem,

colocam música,

comem juntas,

jogam futebol.

Elas parecem aproveitar muito

momentos que não têm nada de especial.

Vi cenas assim muitas vezes.

E comecei

a pensar em uma coisa.

Afinal, o que determina a felicidade?

Claro,

não pretendo simplesmente dizer

que os brasileiros são mais felizes do que os japoneses.

Cada pessoa tem suas preocupações,

e até quem parece estar sempre sorrindo

carrega dificuldades que eu desconheço.

Acho que, com os japoneses, é igual.

Por isso,

não quero decidir qual país tem as pessoas mais felizes.

Só que,

depois de começar a viver no Brasil,

houve coisas que me chamaram a atenção.

No Japão,

há mais situações em que sinto praticidade no dia a dia.

O transporte é bem estruturado.

As cidades são limpas,

e há muitos lugares em que me sinto seguro.

Os serviços são cuidadosos nos detalhes.

É fácil encontrar o que quero comprar.

Existem, de verdade, muitos sistemas

que facilitam a vida.

Depois de vir para o Brasil,

percebi muitas vezes

como o Japão era um país confortável para viver.

Ainda assim,

quando observo as pessoas que conheci no Brasil,

há momentos em que penso:

será que elas sabem aproveitar o presente muito melhor do que eu?

De forma alguma

elas têm tudo.

Há inconvenientes no cotidiano.

Há dificuldades também.

Mesmo assim,

aproveitam o tempo com a família.

Riem com os amigos.

Curtem a música.

Curtem o futebol.

Aproveitam este exato momento

com quem está ali.

Claro,

isso não vale para todos os brasileiros.

Mas, pelo menos,

entre as pessoas que conheci,

havia muitas que sabiam muito bem aproveitar o que já tinham.

Ao observar isso,

comecei a olhar também para mim.

Talvez, quando estava no Japão,

eu achasse que faltava alguma coisa

para ser feliz.

Se eu melhorasse mais.

Se fosse mais reconhecido.

Se tivesse mais resultados.

Se tivesse mais dinheiro.

Se chegasse mais perto de quem eu queria ser.

Eu sentia que a felicidade estava

sempre depois desse “mais”.

Quando conquistava uma coisa,

já queria a próxima.

Quando alcançava uma meta,

olhava ainda mais alto.

Isso, por si só, não é ruim.

É porque queremos melhorar

que conseguimos crescer.

Eu também

quero continuar buscando mais.

Mas,

se a condição para ser feliz

estiver sempre no próximo passo,

quando vou conseguir ser feliz?

Quando me tornar profissional.

Quando chegar a uma liga mais forte.

Quando começar a ganhar dinheiro.

Quando chegar à seleção japonesa.

Mesmo que esses sonhos se realizem,

com certeza, depois deles,

vai aparecer um novo “mais”.

Talvez nós, seres humanos,

sejamos muito bons

em encontrar o que nos falta.

Mas,

talvez sejamos surpreendentemente ruins

em enxergar o que já temos.

Uma coisa mudou muito dentro de mim

depois que vim para o Brasil.

Passei a pensar

que aquilo que possuímos

e a capacidade de sentir felicidade

não são necessariamente a mesma coisa.

Foi essa a mudança.

Claro,

acredito que dinheiro é importante.

Segurança também.

Um ambiente bom para viver,

educação,

saúde,

e os sistemas que sustentam a vida também são importantes.

Não pretendo reduzir uma vida difícil

à frase

“felicidade é uma questão de atitude”.

Acredito que o ambiente, sem dúvida,

muda o peso das dificuldades.

Mas,

quanto melhores forem as condições,

isso também não significa que a felicidade venha automaticamente.

Por mais que a gente tenha,

se só contar aquilo que falta,

a sensação de insuficiência nunca vai acabar.

Por outro lado,

mesmo que a vida não seja perfeita,

ter alguém com quem comer hoje.

Ter alguém com quem rir.

Ter um lugar para onde voltar.

Estar bem de saúde mais um dia.

Se conseguirmos perceber essas coisas,

talvez o mesmo dia

passe a parecer diferente.

Ao vir para o Brasil,

entendi como o Japão é um país privilegiado.

E, ao mesmo tempo,

percebi que viver em condições favoráveis

e conseguir se sentir privilegiado

não são a mesma coisa.

Foi outra coisa que aprendi.

Eu fui para o exterior porque queria conhecer o mundo,

mas sinto que foi no Brasil

que também conheci o Japão pela primeira vez.

Quando morava no Japão,

achava que conhecia meu país.

Mas,

quando estamos sempre dentro de alguma coisa,

há aspectos que não conseguimos ver.

Como um peixe dentro d’água

que não pensa sobre a água.

Só depois de sair do Japão

enxerguei sua praticidade.

Sua segurança.

Sua limpeza.

O sabor da comida.

Descobri também que a cultura de respeitar compromissos e horários

não é igual em todos os lugares do mundo.

E

percebi o valor de poder falar japonês.

Quando estamos no exterior,

mesmo conseguindo conversar sobre coisas simples,

às vezes não conseguimos expressar

exatamente o que queremos dizer.

Quero fazer uma piada.

Quero transmitir até as nuances.

Quero que entendam meus sentimentos

exatamente como eu os sinto.

Está tudo na minha cabeça,

mas não consigo colocar em palavras.

Depois de passar por isso,

até aquelas horas de conversa boba

com os amigos no Japão

parecem um grande luxo.

Poder dizer qualquer coisa e ser entendido.

Rir de histórias antigas.

Se empolgar com assuntos sem importância.

Aqueles momentos,

naquela época,

eu nunca tinha chamado

de momentos felizes.

Com a família era igual.

Quando estava no Japão,

pensava: “Vou poder vê-los de novo”.

Se não conversar hoje,

converso amanhã.

Se não comermos juntos hoje,

teremos outra oportunidade.

Com os amigos também.

Se não der para encontrar hoje,

a gente se vê na próxima.

Eu tinha a sensação de que

sempre haveria uma próxima vez.

Mas,

vivendo tão longe do Japão,

mesmo que eu queira muito ver alguém,

não significa que possa encontrar essa pessoa hoje.

Só então

percebi do que sentia falta.

Não eram lembranças extraordinárias.

Era comer à mesma mesa que minha família.

As vozes que eu ouvia dentro de casa.

O tempo rindo com os amigos sem pensar em nada.

O caminho de sempre.

A loja de sempre.

A paisagem de sempre.

“Bom dia.”

“Vai com cuidado.”

“Chegou!”

“Até amanhã.”

Eram essas coisas

que tinham sido tão comuns.

Talvez eu tenha

pensado na palavra felicidade

como algo grandioso demais durante muito tempo.

Realizar um sonho.

Ter sucesso.

Conquistar o que quero.

Ser reconhecido pelos outros.

Claro,

existe felicidade nisso também.

Eu também

quero realizar meu sonho.

Mas

acho que existe outra forma de felicidade,

uma forma mais silenciosa.

Acordar de manhã

e estar bem mais um dia.

As pessoas que amo estarem vivas.

Ter o que comer.

Ter um lugar para voltar em segurança.

Poder rir com alguém.

E, quando chega a noite,

poder dizer:

“Até amanhã”.

Só isso.

Provavelmente,

não teria graça nenhuma postar isso nas redes sociais.

“Hoje comi com minha família.”

“Conversei com meus amigos.”

“O dia terminou sem nenhum problema.”

Um dia assim,

aos olhos de outra pessoa,

pode parecer um dia em que nada aconteceu.

Mas

talvez um dia a gente sinta uma saudade enorme

justamente daquele dia em que não aconteceu nada.

Nós

percebemos rapidamente o que não temos.

Quero mais dinheiro.

Quero um trabalho melhor.

Quero melhorar mais.

Quero mais reconhecimento.

Quero uma vida melhor.

Quero ser mais feliz.

Mas

nos acostumamos ao que já temos.

Ter família.

Ter amigos.

Ter saúde.

Ter um lugar para voltar.

Poder ouvir a voz de quem amamos.

Poder falar nossa própria língua.

Mais um dia ter terminado normalmente.

No instante em que perdemos essas coisas,

entendemos o quanto eram grandes.

Mas, enquanto estão ali,

é impressionante como deixamos de enxergá-las.

Por isso, ultimamente,

o significado de ser grato

também mudou um pouco para mim.

Gratidão

não é só dizer “obrigado”

quando alguém faz algo especial por nós.

É não tratar como garantido

o que está diante dos nossos olhos agora.

Acho que isso

também é gratidão.

Claro,

não quero dizer

que devemos nos contentar com o que temos e parar de buscar desafios.

Eu mesmo,

se pensasse assim,

não teria vindo até o Brasil.

Quero continuar correndo atrás dos meus sonhos.

Quero melhorar.

Quero ir mais longe.

Quero conhecer lugares que nunca vi.

Quero me desafiar.

Mas

mudei um pouco

em relação a quem eu era no Japão.

Antes,

só olhava para aquilo que estava longe.

Agora,

quero olhar para longe

e, ao mesmo tempo, cuidar do que está perto.

Correr atrás de um sonho

e perceber a felicidade que já existe

não são coisas opostas.

Buscar o “mais”

e também valorizar o “agora”.

Não ficar tão obcecado em realizar um sonho

a ponto de descuidar do dia de hoje,

o próprio dia em que estou correndo atrás dele.

Porque

até a vida que levo agora

um dia será um passado ao qual não poderei voltar.

Mesmo este momento difícil no Brasil,

para quem eu for daqui a alguns anos,

pode se tornar uma época

à qual eu gostaria de voltar.

Pensando assim,

talvez não exista, de verdade,

nenhum “dia sem importância”

na vida.

Se agora

alguém sente que os dias são sempre iguais

e que a vida está sem graça,

acho que não é preciso

se obrigar a acreditar:

“Eu sou feliz”.

Existem coisas difíceis.

Existe uma realidade que você quer mudar.

Existem dias em que dá vontade de fugir.

Só peço

que, uma vez,

você olhe para o que existe no seu cotidiano.

Sua casa de sempre.

Sua comida de sempre.

Seus amigos de sempre.

Sua família de sempre.

Sua escola de sempre.

Seu trabalho de sempre.

Seu caminho de volta de sempre.

As vozes de sempre.

O “bom dia” de sempre.

O “chegou!” de sempre.

O “até amanhã” de sempre.

Talvez agora

isso pareça tão normal

que você não veja valor nessas coisas.

Mas

não existe garantia nenhuma

de que tudo isso vai durar para sempre.

Eu precisei sair do Japão

para finalmente perceber.

Por isso,

se for possível,

não quero descobrir só depois de perder

que aquilo era felicidade.

Quero,

enquanto ainda está aqui,

conseguir perceber pelo menos um pouco.

Eu

vim para o Brasil porque queria conhecer o mundo.

E, de fato,

conheci um mundo que não conhecia quando estava no Japão.

Conheci uma cultura diferente da japonesa.

Conheci outros valores.

Conheci outras maneiras de viver.

Também conheci pessoas

que não teria conhecido se não tivesse vindo para cá.

Meu mundo,

sem dúvida, ficou maior.

Mas

o que percebi depois de chegar tão longe

não foi uma resposta que estivesse em algum lugar muito distante.

Pelo contrário,

era algo que sempre tinha estado bem perto de mim.

Comer com a família.

Conversar bobagem com os amigos.

As pessoas que amo estarem bem.

Dormir tranquilo.

Poder rir na minha própria língua.

E

mais um dia terminar sem nenhum problema.

Eu

achava que, para ser feliz,

precisava conquistar mais alguma coisa.

Mas,

depois de vir para o Brasil, penso:

talvez nós

não estejamos precisando de algo a mais

para ser felizes.

Talvez só não estejamos percebendo

a felicidade que já existe.

Vou continuar perseguindo meus sonhos.

Vou aos lugares aonde quero ir.

Vou continuar mirando mais alto.

Mas

quero ser alguém que não se envolva tanto

na busca por uma felicidade distante

a ponto de deixar passar a felicidade que existe aqui hoje.

Quando um dia eu olhar para minha vida,

não quero perceber só então:

“Como eu era feliz naquela época”.

Se for possível,

quero perceber agora,

enquanto ainda estou vivendo esses dias.

Porque talvez, no momento em que vivemos

os períodos mais felizes da nossa vida,

a gente os chame apenas de dias normais.